quinta-feira, maio 23

Privacidade e a Intromissão Alheia


Discorrer sobre a falta de privacidade é interessante no momento em que, ao fazer isso, estarei eu mesmo tornando público algo que devaneio em privado. Não por isso deixarei de fazer algumas considerações.  Em tempos aonde proliferam  redes sociais, como facebook, twiter, tumblr, instagram, e o quase finado orkut, ficar ou estar alheio a tudo isso é quase que impossível. A partir do momento em que nos inscrevemos em alguma conta, seguramente estaremos ali, colocando nossos dados pessoais, de tal forma que, caso alguém consiga hackear nossa senha, terá acesso aquilo que depositamos como informação, seja ela pública ou privada. Destarte, sempre haverá o risco do privado virar público. Caso recente, e certamente não único, o de uma aluna que se envolveu com o professor, cujo namorado, desconfiado de sua parceira, resolve então hackear a conversa alheia, ao entrar na conta da namorada para certificar-se da infidelidade suspeita e posteriormente confirmada. Não satisfeito com a descoberta, ainda disponibiliza na internet, para que todos tenham acesso, o conteúdo do caliente diálogo regado a vinho tinto. Algo que era para ser privado, íntimo, particular, torna-se, ainda que de maneira ilegal, em público. Quem trilha pelas redes sociais deve entender que está sujeito a todo tipo de situações, posto que a partir do momento que torna público sua imagem, o que farão dela, já não lhe pertence.
Mas não é apenas nas redes sociais que somos privados , desculpem-me a redundância, de nossa privacidade por assim dizer.  Porventura notamos como os mecanismos de busca e as lojas eletrônicas lidam com nossos dados, com nossos cliques, ainda que não compramos nada em determinada loja? Por exemplo, quando digito uma palavra no Google, automaticamente o buscador mostra aquelas palavras que tenham maior proximidade com meu próprio histórico de pesquisa ou mesmo, o local de onde estou a pesquisar. Provavelmente o site de busca rastreia o meu IP ou minha conta de usuário e identifica as minhas preferências. Os entendidos de plantão certamente terão uma explicação tecnicamente melhor para o fenômeno. Semelhantemente acontece com as grandes rede de lojas eletrônicas, como a Submarino, Saraiva, Fnac entre outras, assim como o próprio Youtube, que coloca na nossa página inicial vídeos relacionados ao nosso favoritos ou em nossas pesquisas. Sempre seremos redirecionados para áreas de nosso interesse. Como essas corporações sabem disso? Recentemente cunhou-se o termo Big Data ao conjunto de informações ou rastros que deixamos ao navegar por diversos sites, desde o cadastramento nesta ou naquela loja virtual ou participar em alguma rede social. Necessariamente não precisamos fechar uma compra ou terminar o cadastro. Grandes redes já sabem como você clicou, aonde passou e até mesmo estudam o motivo do por que o processo não ter finalizado. Baseado nesses dados eles preparam estudos para que na próxima vez você seja alcançado.
A impressão que tenho é que inexoravelmente temos cedido nossa alma ao comércio, aos governos, as corporações. Para elas nós somos números estatísticos. Somos seres numerados, temos CPF, Identidade, Carteira de Motorista, Título de Eleitor, Certificado de Reservista, Carteira de Saúde, Carteira de Clube, Cartão de Crédito, Carteira de Estudante, a lista seria enorme se fôssemos elencar todos os números que recebemos desde o nascimento até o número de nosso sepulcro. Baseado nesses dados, eles nos controlam, sabem aonde estamos, o que fazemos ou deixamos de fazer, o que compramos, o quanto ganhamos e o quanto investimos.
 Abro um parênteses...dizem  inclusive que nossas ligações são rastreadas e que órgãos do governo podem grampear cerca de 80% dos telefones hoje no país. Não que seja feito isso de maneira imediata e ao mesmo tempo, mas que tem a possibilidade de escutar nossas conversas desde que autorizadas pela justiça a qualquer momento. Nos Estados Unidos estes números subiriam para cerca de 95%.
Voltemos... Esses mesmos grupos corporativos fazem projeções sobre consumo e comportamento e diante dessa avalanche de informações e de dados somos levados a crer que temos o controle de nossas vidas. Será?
Cabe ainda uma ultima reflexão, mas que não pretende de forma alguma, esgotar o tema. Talvez a falta de privacidade seja autoimposta. Pois concordando ou não com o argumento, o fato é que somos seres narcísicos. Gostamos do espelho, do nosso reflexo em algum lugar, de nos mostrar, mas não muito, pelo menos por um tempo mantemos o suspense. Isso faz com que o outro, que nos perscruta, tenha em si, o desejo despertado para descobrir mais. E assim, numa troca idílica vamos nos desnudando para o mundo e nesse processo por vezes deixamos de ser nós mesmos para tornarmos objetos de consumo alheio.  Se não fora assim, o BBB não passaria da primeira edição....
Ora, essa ausência, essa falta de privacidade por assim dizer é uma característica indelével de nosso tempo. O público e o privado se misturam, se fundem e aquilo que dá mais audiência, torna-se o mais importante do que um caráter contido. O palco hoje em dia é o mundo midiático e instantâneo das redes sociais, dos videoblogs e nesse show o indivíduo deixou de Ser e passou a ser qualquer coisa, menos ele mesmo... virou público, de todos.
Por fim, a partir do momento que torno público, que publico este artigo, estou sujeito as demandas desse mesmo sistema e corro o risco de ser julgado, mal interpretado, assim como de ter minhas ideias, senão aceitas, mas pelo menos lidas, e o que me torna então alvo de indivíduos que talvez se interessarão pela minha vida... privada. O que antes era um pensamento meu ou que compartilhava em privado, agora virou acessível a todos graças ao interesse de alguém em saber minha opinião sobre o tema.
Para finalizar, ouso afirmar que a falta de privacidade ocorre quando alguém a invade e torna público o seu conteúdo, esse tem em seu bojo responsabilidades inerentes a quem o faz.  Para aqueles que por opção preferem viver sua privacidade com exclusividade, deverão criar meios para que a sua liberdade seja exercida sem as pressões midiáticas a que todos nós estamos expostos e contentar-se com a própria maneira de ser e pensar, mas consciente de que, em algum momento, talvez ele mesmo possa ter sua vida sendo mostrada no palco do mundo sem a prévia autorização. Estaremos preparados para isso?

Claudio Amarante

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